Reflexão sobre ‘Pedagogia do Espectador’ e ‘Instâncias da relação entre teatro e público: o espectador como participante do ato teatral’ de Flávio Desgranges
Imaginei
que talvez continuar seguindo as escritas de um mesmo autor fosse um caminho
mais esclarecedor para minha primeira escrita... e acho que acertei. Primeiramente, Flávio me deu o
contexto histórico que eu precisava, mas não sabia por onde começar a pesquisar
– afinal, a história do Brasil é tão extensa, por onde começar a entender onde
a relação que a sociedade contemporânea tem com o teatro se inicia? Sou uma
pessoa muito apegada a contextos históricos, eles me fincam no chão como raízes
e só assim sinto que posso florescer com segurança.... E gosto que isso esteja
presente em ambos os textos.
Não
tinha conhecimento da crise teatral dos anos 70 – é engraçado pensar sobre
isso, pois para mim sempre havia existido uma certa distância social brasileira
em relação ao nosso fazer, quase como se fosse estritamente natural e não uma
crise que marcadamente começou a se agravar no século passado. Essa suposição
evidencia a minha falta de conhecimento prévio em relação a materiais teóricos,
mas diz muito mais sobre como eu e minha família temos vivenciado nossa relação
com o teatro – e que, generalizando, pode ser estendido de forma genérica para
a sociedade. Não só na opinião de Flávio, mas também na de Anatol Rosenfeld, o
povo brasileiro nunca se conectou com o teatro ao ponto desde se tornar um
“hábito cultural amplamente difundido no brasil”; vejo isso claramente refletido
na minha família e na maioria das pessoas que conheço e nutro contato. O teatro
têm sido, na mais estereotipada visão, um evento pontual que ocorre somente no
palco italiano, principalmente no Teatro Municipal de Uberlândia, e que merece plateias
grandes quando artistas renomados da televisão aparecem com seus espetáculos.
Eu mesma, e é com uma honestidade brutal e sensação de desapontamento que admito
isso, só fui ao Teatro Municipal assistir artistas da minha própria cidade por
livre e espontânea vontade uma única vez; duas, se contarmos um espetáculo da
Trupe de Truões em que eu estava ajudando na produção e acabei me juntando à
plateia.
O
que isso diz sobre a pessoa que está a frente de uma bolsa de pesquisas com o
objetivo de encantar espectadores adultos, que em sua maioria nunca foram ao
teatro? Lendo ambos os textos, sobretudo “Instâncias da relação entre teatro e público:
o espectador como participante do ato teatral”, percebi como eu mesma sei pouco
enquanto espectadora. A pesquisa de Flávio no grupo iNerTE fez meus
olhos brilharem: além da beleza do projeto, a forma como trabalham a formação
de espectadores com um espetáculo onde uma espectadora assistindo um espetáculo
é a protagonista e também com os debates performativos é genial. Genial. O
grupo traz reflexões com as quais eu ainda não havia me deparado:
·
O
espectador também é um criador, tanto quanto o artista. Ele cria suas
hipóteses, teorias e sentidos enquanto a cena se desenrola
·
Ao
invés de perguntar as pessoas o que elas entenderam do espetáculo, o que os
artistas querem dizer, perguntar ‘o que aconteceu comigo em relação a esse
espetáculo?’
·
A
leitura de uma cena não deve ser algo previamente estabelecido, único, fixo,
algo que foi milimetricamente pensado para ser descoberto de certa forma, mas
que deve ser sentida e interpretada individualmente
·
As
palavras devem ser tratadas como numa língua estrangeira, estranhando os
sentidos usualmente atribuídos para fugir do senso comum e chegar a outros
lugares
O
primeiro tópico, sobre o espectador também ser um criador, é o único que já
havia me atravessado de alguma forma. Afinal, como espectadora, eu mesma
vivenciei esse processo, mesmo que não tivesse consciência disso. Durante
várias apresentações, eu me peguei criando significados, visualizando os
acontecimentos futuros, tentando adivinhar aonde o roteiro daria no fim das
contas; como atriz, também passei a perceber mais sobre a cenografia, a posição
de cada luz, a roupa dos personagens, e me perguntar quais seriam os
significados disso ou daquilo e como eu proporia uma cena diferente daquela em
que estava assistindo. Acho que isso é natural para nós, tanto espectadores
quanto atores, e acontece quando vemos teatro ou cinema. Mas não era uma
consciência ativa, algo que eu sabia que deveria levar em conta nem aqui, nessa
pesquisa, nem na carreira como artista-docente.
Dos
outros tópicos, eu realmente não tinha conhecimento algum. E existe um certo
prazer que se revira, dá voltas, se contorce em agonia dentro de mim toda vez
que os leio de novo e de novo, porque sei que a partir do momento em que os
conheci não posso mais ignorá-los. Tenho a impressão de que eles vão ser parte
dos norteadores da minha pesquisa. Isso me assusta: ter que criar artifícios
para que o meu futuro público pense de forma tão ativa, pois é isso que desejo
incentivar neles, quando nem eu mesma sei por onde começar.
Com
a leitura de ‘Pedagogia do Espectador’, notei também que é preciso fugir de
campanhas genéricas que rondam ao centro de ‘vá ao teatro, é importante’ e dessa
concepção de que o teatro é uma espécie de vacina contra a ignorância. Essa não
é a visão que quero trazer para o meu projeto. Citando Flávio, “o despertar do
interesse do espectador não pode acontecer sem a implementação de medidas e
procedimentos que tornem viáveis o seu acesso ao teatro. Na verdade, duplo
acesso: físico e linguístico. Ou seja, tanto a possibilidade de o indivíduo
frequentar espetáculos quanto a sua aptidão para a leitura de obras teatrais”. As
ideias que tenho até agora embarcam mais a concepção de um fazer artístico do
que de um processo de assistir espetáculos; não que não haja possibilidade de
fruição de peças e afins, mas esse não é objetivo central. Meu objetivo é
desmistificar os estereótipos de que o teatro é uma coisa longínqua, feita num
palco, com texto decorado e que muitas vezes é difícil demais de ser entendido,
de que não é para o tipo de gente que mora ao meu redor no bairro Laranjeiras. É
mais como o desafio de realmente fazê-los tomar gosto pelo fazer teatral.
Flávio
me provocou com muitas perguntas que ainda não sei como responder. Por que
fazer teatro? Por que ir ao público hoje? Quais os objetivos gerais e
específicos do meu projeto? Qual ângulo de ataque escolherei: aprender as
regras, aplicando jogos improvisacionais; experimentar uma montagem de
espetáculo; aprofundar o conhecimento técnico do maquinário teatral; formar
professores; convidar artistas para organizarem oficinas nas escolas; desenvolver
práticas de ator; conhecer os meandros da produção; explorar recursos de
encenação? Que aspectos do fenômeno teatral serão trabalhados no primeiro
momento? Quais serão meus próximos passos? Aonde e como efetivarei minha
pesquisa?
Eu
não sei. Não com certeza. E isso provavelmente é bom, pois vai me deixar em
movimento constante, em inquietação constante, sem descansar até encontrar a
melhor maneira. Tudo isso me deu uma noção do quando ainda não sei. Essa
jornada vai ser uma formação de espectadores bem longa, começando pela minha
própria formação. Não dá para ensinar, ou instigar, aquilo que não sabemos.

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