Reflexão sobre ‘REFLEXÕES E PROJEÇÕES FUTURAS EM ARTE E COMUNIDADES’ de Hugo Cruz
Já
tem pouco mais de um mês desde que comecei a minha pesquisa. Eu sabia que havia
um longo caminho a percorrer e que sei de pouco perto do que preciso saber para
realizar meu trabalho com o mínimo de excelência. Mas é engraçado como, a cada
novo texto, uma torrente de novas coisas cai sobre mim; mesmo as informações
mais triviais percebo que devem receber uma atenção especial, pois não são tão
triviais como pareciam. E é isso que senti na reflexão de Hugo Cruz: um bocado
de pequenas coisas que eu achava que sabia, em meu senso comum, se tornarem
gradativamente maiores.
Hugo
começa tratando sobre o espaço onde realizamos as ações em comunidades. Ele
fala sobre a importância da tomada de espaços públicos, como praças, escolas,
ruas e praças, em apresentações teatrais, pois “o espaço público da comunidade
como arena central do exercício da cidadania, acessível a todos, assume-se como
fundamental numa proposta que se pretende democrática e baseada numa relação
criativa, colaborativa e horizontal”. Além disso, demonstra grande potência “porque
o processo de criação acontece nos espaços onde se deseja que aconteçam as
mudanças”. Embora ele se refira principalmente sobre apresentações, enxerguei
uma fresta que talvez seja interessante usar em uma das aulas da minha futura
oficina aqui no bairro, caso realmente aconteça.
Gosto
da ideia de habitar um espaço público para fazer uma aula. Quando tento
visualizar esse cenário, imagino uma aula mais despretensiosa, voltada para o
lúdico, onde os jogadores não se sentissem tão tímidos e envergonhados da
exposição pública. Por isso, o que parece mais óbvio talvez seja uma aula de
jogos teatrais, para que, principalmente, houvesse diversão. Mas, ao mesmo
tempo que em que acho que essa possa ser uma ideia com potencial, vejo muitas
barreiras – barreiras que possam vir apenas de mim mesma, do medo de afastá-los
ao invés de atrai-los. Fico considerando e reconsiderando essa ideia, apesar de
saber que precisaria chegar ao ponto de realmente organizar uma oficina e ter
os participantes para saber a dimensão, a entrega, a intensidade da turma após
uma ou duas aulas, para então decidir se daria certo ou valeria a pena. Voltando
um pouco mais para o tempo presente, essa ocupação de lugares públicos é uma
coisa que posso – e quero – fazer por mim mesma, antes da oficina começar.
Em
uma das minhas ideias de divulgação/entrevista/contato com a comunidade, o que
tem falado mais alto dentro de mim é uma vontade de transitar pelos pontos mais
frequentados do bairro Laranjeiras com intervenções artísticas. Em minha
cabeça, essas ‘intervenções’ aparecem mais como a criação de personagens
desbocados, aqueles que já vão chegando, fazendo graça, criando intimidade, até
um ponto em que possa conseguir algumas respostas que preciso para sentir a
realidade do bairro. Nessa parte do projeto, também tenho em mente convidar alguns
colegas atores que sei que, em seu trabalho, tem facilidade de se conectarem
com o público, como palhaços e princesas. Essa possibilidade está ardendo cada
vez mais dentro de mim, porque quero chacoalhar meu bairro, infesta-lo com arte
e vida que não vejo costumeiramente nas ruas daqui.
Quanto
mais penso sobre Laranjeiras, mais acho que não conheço o lugar onde tenho
morado minha vida toda. O que eu posso fazer por minha comunidade, sem utilizar
aqueles preceitos ignorantes de que aqui já não há arte e que eu posso trazer
arte para cá? É claro que eu sei que existe arte, teatro e projetos culturais
aqui, só me irrita o fato de que não são fáceis de encontrar ou que, ao que me
parece, não sejam tão procurados; me incomoda que não transborde arte aqui, nem
que seja uma única vez ao ano, para tirar esse lugar da normalidade. Eu quero
interromper a rotina dessas pessoas. É claro que isso é uma questão
inteiramente minha – e talvez deva ser tratada com a minha psicóloga. Mas por
que não ir lapidando essas ideias malucas, já que é mais rápido e mais barato?
Voltado
ao texto de Hugo, também é mencionado que as atividades comunitárias precisam
ter um público diverso, tanto quanto possível, e que não devem visar somente
entretenimento, embora necessitem dele como instrumento, mas visar atingir
camadas de cidadania “onde a comunidade pode se ver, rever e criar práticas e
discursos alternativos”. Como eu havia dito mais acima, essas são questões
triviais que, postas sob um microscópio, apresentam-se mais complexas do que a
olho nu. Como eu poderia buscar um público adulto diverso? Aonde preciso ir
para alcançar pessoas de diversas idades, gêneros, profissões e orientações
sexuais? E, ainda não obstante, sinto que meu discurso deve ser adequado a cada
um desses públicos para atrai-los propriamente... então como fazer isso? E como
exercitar essa cidadania e pensamento críticos, quando estamos em momentos tão
polarizados em nosso país?
A
resposta mais honesta é que ainda não faço ideia.
Mas,
não satisfeito, Hugo Cruz não parou de me perturbar aqui. Ele me lembrou que,
durante todas as matérias de Licenciatura que já cursei até agora, sempre acabo
chegando a mesma conclusão: quando for atuar como professora, quero propor
processos criativos horizontais e comunitários. Não quero criar sozinha,
simplesmente obrigando todos a fazerem do meu jeito. Assim, uma abordagem
aberta é importante para mim, de forma que eu me lembre que, apesar de todos os
pontos que estou pensando em trabalhar e dos que ainda pensarei, preciso ter um
olhar e uma escuta atentos para os desejos daqueles que estarão comigo,
daqueles que buscarei encantar. Não se encanta ninguém com ordens e
inflexibilidade. E, claro, eles precisarão assumir a criação do processo para
que se identifiquem com ele, ao invés de abandoná-lo. Então, é bom eu já ir
pensando em quais cartas na manga vou precisar guardar caso um exercício não dê
certo.
E
minha comunidade também não é uma página em branco. Ela tem história, ainda que
não sejam histórias tão marcantes e fáceis de identificar quanto as contadas
por Madalena Freire ou Marcia Pompeo Nogueira. Moro aqui a vida inteira e não
sei dizer quais histórias habitam aqui, nem como fazê-las emergir, mas gostaria
de trabalhar um pouco com esse senso de comunidade, de historicidade, de
lembranças. Hugo fala sobre isso. O que faria Laranjeiras único, dentre todos
os outros bairros, as outras periferias? Um dos caminhos possíveis é explorar
essa história.
Os
outros caminhos possíveis ainda precisarei cavar para descobrir.

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